Pular para o conteúdo principal

Minha casa, gordos lucros

Do Blog RS Urgente

Paulo Muzell
Sopram bons ventos para a indústria de construção civil do país nos últimos anos. Vários fatores se conjugaram para que isso ocorresse. Primeiro tivemos a redução do desemprego e o aumento do emprego formal, combinados com significativos incrementos reais do salário dos trabalhadores, especialmente do mínimo. Além disso, o crédito habitacional especialmente ancorado na Caixa Federal foi ampliado e tornado mais acessível através da dilatação dos prazos e da adoção de taxas de juros mais baixas, especialmente para a população de baixa renda.
Há, também, o grande programa habitacional do governo federal, o “Minha Casa, Minha Vida”, funcionando há alguns anos a todo vapor. O governo Dilma acaba de lançar a segunda etapa, anunciando um aporte de recursos de 125,7 bilhões de reais, quase dois terços dos quais – 72,6 bilhões – destinados a subsídios. Tivemos nos últimos dois anos a aprovação de um sem número de leis federais, estaduais e municipais reduzindo impostos e taxas para os projetos do programa, com o objetivo de facilitar a aquisição de moradias para milhões e milhões de brasileiros.
Confesso que temo que tais facilidades possam, especialmente na hipótese de ocorrer afrouxamento da fiscalização, resultar em indesejados desvios e taxas de lucro extraordinárias para as empresas. A disparada da valorização das ações das empreiteiras na bolsa de valores ocorrida nos últimos anos, antes que eclodisse a recente crise do euro reforça essa suspeita e informa que o setor vai muito bem, obrigado.
Neste contexto o prefeito Fortunati – já candidato à reeleição – lançou com pompas e ao soar de fanfarras a etapa 2 do “Minha Casa“ em Porto Alegre. Até aqui tudo bem, dentro da mais absoluta normalidade.
O fato absurdo e escandaloso ficou por conta de um segundo personagem, o diretor-geral do Demhab, Humberto Goulart (foto). Em entrevista concedida ao Jornal do Comércio, edição de 10 de outubro passado, ele atribuiu o atraso e a paralisação dos projetos da faixa 1, destinados a famílias de 1 a 3 salários mínimos ao baixo lucro proporcionado por este tipo de empreendimento, o que desestimularia as construções. E prontamente tirou da cartola a “fórmula mágica” para solucionar o problema: proporcionar aos empreiteiros uma taxa de retorno maior que seria obtida através da doação de 12 áreas da Prefeitura às construtoras. Com um custo menor as habitações de baixa renda seriam viabilizadas. Simples, não? E ainda alertou para um perigo: “espero que façamos em breve um pacto com os empresários e que possamos contratar antes das eleições, escapando das limitações impostas pelo período eleitoral.” Excesso da franqueza, falta de pudor ou pura burrice? O leitor que julgue.
Fica uma pergunta final: será que uma tão absurda lei de doações seria aceita e aprovada pela Câmara Municipal de Porto Alegre?
Foto: Assessoria de Imprensa/Câmara de Vereadores de Porto Alegre

Postagens mais visitadas deste blog

Encerramento das atividades

Prezados amigos, No  dia 01 de dezembro de 2016  foi realizada a Assembleia Geral de dissolução da Ong Cidade, cumpridas todas as formalidades legais e o que previa o Estatuto da entidade para esse caso. Nosso acervo ficou sob a guarda do NPH/UFRGS (Núcleo de Pesquisa em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), coordenado pelo professor Mathias Seibel. Abraços a todos e boa luta!

Revista internacional divulga impactos da Copa em Porto Alegre

A revista AMNESTYLE MAGAZINE DES DROITS HUMAINS publicou na edição N˚ 66 de setembro de 2011  matéria realizada por Gerhard Dilger sobre os impactos que as obras para a Copa 2014 estão provocando na vida das pessoas pobres da cidade. A ameaça de violação do direito à moradia e os casos de reassentamentos já ocorridos expõe a população à vulnerabilidade e insegurança. A certeza de ter um teto e um endereço para voltar no final de uma jornada de trabalho ou retorno da escola está com os dias contados. " Para onde vamos ?" é a pergunta que os moradores fazem na iminência da remoção e o mote para a mobilização. Relégué·e·s à la périphérie. Le Brésil s’active pour accueillir la Coupe du monde de football en 2014. Mais les grands travaux prévus priveront des dizaines de milliers de familles de leur logement, sans que des alternatives valables ne leur aient été offertes   registra e ajuda a construir a memória de uma história que marcará profundamente a cidade de Porto Alegre e ...

As Praças do PAC terão o mesmo destino da Praça da Juventude?

Em maio de 2011 a Prefeitura de Porto Alegre reconheceu a perda de R$ 1,4 milhão de verba federal destinada à construção da Praça da Juventude, no Bairro Bom Jesus, por não ter condições de elaborar o projeto dentro dos critérios apresentados pelo Governo Federal. Agora, outro caso envolvendo as Praças do PAC está prestes a se repetir. Veja notícia no blog do Conselho Popular da Lomba do Pinheiro . Um dos modelos de praça com 7.000m2 O que são as Praças do PAC? São equipamentos que integram num mesmo espaço atividades culturais, esportivas, lazer, serviços sócio-assistenciais, políticas de prevenção à violência, inclusão digital, formação e qualificação profissional.  No dia 03 de dezembro de 2010 o Governo Federal publicou no Diário Oficial a relação de municípios que receberão as Praças do PAC em todo o Brasil. No Rio Grande do Sul,  22 municípios foram selecionados para receber as praças, entre eles Porto Alegre. As  duas propostas aprovadas para a Capital ...